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sábado, 7 de novembro de 2009

bate-pronto CHIQUINHA


Num mercado dominado por hombres,
ela é uma talentosa e admirável exceção




Se produtividade fosse unidade de tempo, essa guria já teria uns 40 anos. Ou outro parâmetro para tanta criatividade: o que ela já consumiu de canetinha daria um traço equivalente a 3 voltas e meia na Terra. Por onde quer que se olhe, a criação da Chiquinha - cartuns, quadrinhos, personagens, ilustração - impressiona: mantém um site e um blog, onde leitores são mantidos reféns da sua incrível variedade de gracinhas. Ela cativa na Folha de SP, no Diário de Pernambuco, na Mad e na Sexy Premium. E já fez o mesmo no JB, em ZH, no Diário Catarinense e Jornal do Comércio, que não foram bem humorados o bastante pra bancar sua visão não-comportadinha da vida que rola pelaí. Para quem se diz iniciante, a Chiquinha esbanja acuidade: a percepção da sua geração é singularmente sarrista, e remixar referências culturais desta e outras épocas já virou marca registrada. Loquaz no traço e no conteúdo, sua arte cutuca reacionários de todas as idades - um atestado de qualidade. Aos 25 aninhos, a criadora da Elefoa e do Asdrubal constrói um diário contemporâneo onde não poupa nem a si mesma. Enfim, a batalhadora Fabiane Bento já tem muito o que dizer sobre a profissa e a vitrine deste Bate-Pronto é toda dela. Para gáudio do Tinta China. Aeee, colééééga!


Tinta China – Como artista gráfica, qual a sua atividade principal?
Chiquinha – Ultimamente tenho feito algumas ilustrações. Mas o que eu gosto mesmo e faço todo dia são historias em quadradinhos!

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Chiquinha – Alguns já vem com um valor estipulado e a gente negocia dependendo do trabalho. Colunas fixas por exemplo. Outros eu jogo o verde e colho o maduro. Ou o verde mesmo.Ok, sem metáforas mangól.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Chiquinha – Acordo geralmente com sono, tomo banho, faço meu nescau, ouço umas noticias no rádio, ponho um disco, leio os e-mails e vejo o que tem pra se fazer com mais urgência. Geralmente anoto as idéias e faço rascunhos pra finalizar só de noite ou de madrugada, é nesse horário que gosto mais de trabalhar.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Chiquinha – Gosto de ficar fruindo sobre o que tenho que fazer, sempre com papel e caneta por perto. Fico anotando tudo, rascunhando pra depois olhar e ver no que deu. É muito relativo, às vezes começo por uma idéia que tenho meio sonâmbula pela casa, ou no ônibus, ou lavando louça, enfim, durante as atividades corriqueiras da vida. Ás vezes começo pelo pedido de um cliente, ou por uma sugestão de pauta e assim vai. Sempre vou mapeando na cabeça antes de começar, então mais ou menos visualizo como vai ter que ser feito.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Chiquinha – Uso papel e caneta. Mais precisamente a Cis Pen, algo como uma substituta para os órfãos da Futura. Também gosto muito da Pitt que faz às vezes de pincel (como canhota deixo tudo muito sujo trabalhando com nanquim, a mão vai passando por cima, uma nháca total – quem é canhoto conhece o drama). Acho que tratando-se de tecnologias “avançadas” só domino baldinho de tinta do Photoshop. Risos.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Chiquinha – Quase nenhuma, a não ser estar respondendo aos meus estímulos cerebrais. No mais, papel+caneta+scaner em um ambiente amigável. Simplinho assim. Estar chateada ou com ódio de alguma coisa também ajuda de vez em quando.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Chiquinha – Acho que bem. De vez em quando dou uma atrasada em uma ou outra coisinha, mas sempre mantenho o editor ou cliente a par da situação. Não gosto de ninguém cobrando e enchendo o saco e o único jeito de evitar isso é sendo fiel aos prazos definidos. Mas na grande maioria das vezes entrego tudo certo, até por que, se não faço isso fico infartada e insone.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Chiquinha – Prendo as folhas desenhadas com um clipe e guardo em pastinhas que ficam na gaveta da minha mesa.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Chiquinha – Desde criança, por intermédio dos meus irmãos mais velhos, sempre tive uma Chiclete com Banana, Animal ou revistas da Circo em mãos. Minhas primeiras influências descaradas foram o Ota (cartunista e editor da revista Mad) e o Angeli. O Adão e o Allan também, sempre foram fontes de inspiração nos tenros anos da minha mocidade, assim como os quadrinhos underground da década de 60, Crumb, Gilbert Shelton etc, além das revistas de terror ilustradas pelo Nico Rosso. Gosto muito do Kaz, Tonny Millionaire, Shag, Charles Burns, Miss Gally e agora tou lendo um livro do David Mazzucchelli que é demaaaish.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Chiquinha – Por aí, as coisas do mundo são muito bizarras por si só.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Chiquinha – Folha de oficio A4. Compro de pacotão.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Chiquinha – Estar de óculos e desenhar maior me ajudam bastante.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Chiquinha – Acho que meus quadrinhos soam meio ácidos, ou do mal de vez em quando. Piadas sobre sexo, religião, canibalismo, doenças ou mesmo novas tecnologias meio que ofendem de certa forma alguns leitores. Essa coisa de rir do óbvio ululante, não sei por que, deixa um pessoal irritadinho. Afinal, o que se espera é que uma garota faça desenhos meiguinhos e fofos. Aliás, essa palavra mercado me dá certo calafrio de pavor. Brr.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Chiquinha – É, eu sou uma iniciante.. mas acho que posso dizer: desenhar compulsivamente é o caminho.

Foto: Luiz Henrique Pellizzari

sábado, 8 de agosto de 2009

bate-pronto UBERTI

O boa praça que também
é capaz de panelaços




O Uberti tem muita coisa a ensinar, e é um dos dinossauros mais didáticos e prestativos que um iniciante pode encontrar. Receptivo, generoso, bem-humorado, é capaz de compartilhar tudo o que sabe - desde que encontre o arquivo, seja na casa atopetada de relíquias iconográficas, seja na memória atulhada de fatos da pré-história publicitária. Pelo que acumula de referências, é um típico conservador. Seu treino visual abarca desde a infância rural no Alegrete até a distância social em Porto Alegre; já seu currículo profissional vai da época dourada da propaganda aos anos de chumbo do humor. Versátil como só ele - diretor de arte, layoutman, cartunista, ilustrador, quadrinista, chargista, ufa! - domina técnicas que já estão fora de moda mas nunca fora da admiração de quem sabe o que é valioso na arte. Vive de frilas, donde os calafrios.
Elegante do traço às troças, o Uberti cultua mestres, cultiva amizades e detesta aculturação. Na opinião do Tinta China, um cara cult. Daqueles que não conseguem se aposentar porque seus talentos não permitem.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Uberti – Sempre fui publicitário. Hoje estou atuando mais na área da ilustração. Coisas do mercado. Com isso, agora, tenho mais tempo para o cartum e as tiras.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Uberti – Cada caso é um caso. O custo de um trabalho para pessoa física vai ser diferenciado da pessoa jurídica. Mas sempre negociado. Chorado.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Uberti – É um dia que acordo com a energia alimentada pelo combustível da tarefa.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Uberti – Pelo começo, claro. Mas já antevendo como concluí-la usando o meu processo de criação

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Uberti – Hoje domino o computador. Mas o uso apenas como mais um instrumento.
Continuo desenhando à mão, com os materiais conhecidos. Depois digitalizo a imagem e pinto no computador.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Uberti – A liberdade total pra criar, infelizmente não existe. Seria o ideal. O cliente sempre mete a colher. Afinal é ele quem paga. Como publicitário já me habituei.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Uberti – Negocio o mais espichado possível. Mas se houver pressão, na publicidade também aprendi a lidar com isso.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Uberti – Guardo-os em envelopes organizados. Hoje com a digitalização, a imagem final fica arquivada no computador. Posteriormente em CD.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Uberti – Admiro autores como Sempé , Hugo Pratt, Mottini , Uggeri, Toppi, Carl Barks, Lino Palácio, Dik Browne, Toulouse Lautrec, Edward Hopper entre tantos outros.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Uberti – Viva o Google! Como nos facilitou a busca por referências!

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Uberti – Quando desenhava (e pintava) só na mão grande, papéis apropriados, bons, com textura, encorpados. Hoje com a digitalização... o velho e bom sulfite 90 gramas tamanho A4. A não ser, claro, se a encomenda for um original.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Uberti – Antes, a tinta em cabo de pincel, tecidos, dedo, borrifos, etc. ou algum inventado na hora. Hoje ainda uso esses recursos acrescido do computador, que tem os seu macetes gráfico-computadorizados.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Uberti – O valor do trabalho.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Uberti – Dê a partida, esquente o motor. Taxie e decole. Faça um vôo a grande altura sobre a idéia. Depois escolha por onde começar e dê um mergulho sobre o detalhe.

Foto: Olga Pacheco

sábado, 14 de junho de 2008

bate-pronto GABRIEL RENNER

Saindo do Estúdio Pinel
pela porta da frente



Essa espécie de D'Artagnan dos quadrinhos gaúchos, Gabriel Renner está invadindo a alta corte dos quadrinhos nacionais sem ajuda de outros mosqueteiros. Munido de sua pena ágil e olhar melancólico está arrebatando prêmios por onde anda. Dispensável fazer uma lista, só diremos que acaba de voltar das praias ensolaradas do humor carioca onde abocanhou mais um peso de papel e alguns pilas para os cofres. Essa visão melancólica de que falamos acima é responsável pelo desespero de seus personagens mas não o impede de ter alguma esperança, já que ele juntou dinheiro para lançar uma revista, Letal Mágico, a venda numa internet perto de você, onde ele, com toda a paciência, explica para nós como esse mundo é vazio de sentido. Como ainda não entendemos bem a lição, Renner está juntando dinheiro para lançar o número 2. E não descansará de sua batalha até que a verdade seja compreendida. Felizmente para os leitores do Tinta China, ele concordou em roubar uns minutos de sua luta diária e nos responder algumas perguntas. Aproveitem.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Gabriel Renner – Trabalho como ilustrador e infografista de jornal, e faço desenhos para uma que outra editora. Procuro meu destaque na minguante área de quadrinhos, e tiro um troco vendendo a revista Letal Mágico.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Gabriel Renner – A maioria dos freelas que faço já tem um valor mais ou menos estabelecido, porque acabo trabalhando com as mesmas pessoas. Também depende muito da liberdade que tenho para me satisfazer com o meu traço particular. Fazer desenhos de catálogos para indústria calçadista sai mais caro, porque sempre ficam editando os detalhes dos desenhos.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Gabriel Renner – Acordo no meio da manhã, olho alguns desenhos, enquanto luto para levantar da cama. Acabo levantando tarde demais para fazer algo, então esboço o que me ocorreu enquanto me espreguiçava, para enfim, fazer tudo durante a madrugada, depois de voltar da firma.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Gabriel Renner – Tento ficar de bem. Dar uma volta de monareta, escutar uma musiquinha legal ou acordar inspirado com a patroa ajuda muito. Passo um café, penso no que quero fazer e no que preciso pra executar, recolho tudo, fecho a janela, ligo a luminária, aperto play e me enfio num mundinho particular.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Gabriel Renner – Minha última remessa de canetas Futura. Gosto de quando desenho rápido e as coisas funcionam. Largar no micro e pintar prá ver prontinho é a melhor parte. Acho que por isso, acabo usando sempre o phothoshop.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Gabriel Renner – Gosto de estar entre meus livros e meus discos, no Estúdio Pinel. Luz elétrica e um scanner que não seja temperamental também ajudam.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Gabriel Renner – Tenho bastante jogo de cintura com isso, odeio receber pressão, mas como não gosto de demonstrar minha antipatia, tento manter os editores bem tranquilos mandando sempre prévias da produção enquanto eu as realizo.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Gabriel Renner – Vou acumulando em gavetas de roupas, enquanto as mesmas, ficam espalhadas pelo chão. E por mais que tento me organizar feito um almoxarifado, sempre levo horas para encontrar algo.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Gabriel Renner – Em quadrinhos, sempre curti os almanaques da Disney e os álbuns dos Filhos do Trapalhões também, além de amar muito os desenhos animados. Depois me amarrei em Calvin. Mais tarde, Angeli e Laerte me abriram os olhos pra coisa nacional. Os gibis do Sandman me fizeram entender melhor o mundo da hq e o que dava pra ser feito com desenho. Mutarelli e Crumb deram a pitada final. Foram a pimenta. Além disso, adoro Toulose Lautrec, Kent Williams, Simom Bisley e Adrian Tomine.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Gabriel Renner – No corriqueiro e na minha vontade de fantasiar alguma coisa. A maioria das referêcias vem de lembranças emotivas, tipo móveis da casa dos meus pais e a arquitetura de São Leopoldo. A estética do brasil anos 70 me agrada, principalmente quando ainda se encontra presente nos tempos atuais.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Gabriel Renner – Folha de of'ício.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Gabriel Renner – Ando desenhando cada vez menor, o que acho que dá mais valor ao traco rápido, transparecendo com mais nitidez as formas com que resolvo cada situação.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Gabriel Renner – Conciliar o meu sujo traço autoral aos resumidos conceitos cleans da modernidade.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Gabriel Renner – Entregar-se a sua obra tanto quanto necessita dela para viver. Sobreviver já é outra coisa.

Foto: Xiru Sander Scherer

sábado, 10 de maio de 2008

bate-pronto MÁUCIO

Como dar aulas de bom humor
dentro e fora da universidade




O Máucio, menos conhecido como Mario Lúcio Bonotto Rodrigues, além de professor e cartunista, é mais: um agitador cultural em Santa Maria. Como professor, entre outras atividades docentes, atua no Curso de Desenho Industrial da UFSM. Como artista gráfico, aí o Máucio se multiplica como autor e se desdobra como organizador de iniciativas que fazem um bem danado ao humor gaúcho. As edições bem-sucedidas do salão Santa Maria Cheia de Graça e o rebuliço anual do evento Cartucho (ininterrupto desde 2004) mostram bem sua capacidade agregadora e promotora. Para não se sentir inativo, também edita revistas, lança livro de poesia, participa de antologias e exposições coletivas e ainda exalta o exaltado Macanudo Taurino: sua tese de mestrado destaca a importância do personagem do Santiago para a identidade regional. Máucio é mestre de mil maneiras e algumas delas o Tinta China já publicou aqui. Agora é hora de saber, por ele mesmo, como funciona a casa de máquinas desta usina de graça. Falai, Máucio!

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Máucio – atuo como designer-gráfico em Identidade Visual e Projetos Editorias. Como ¨desenhista¨, atualmente, faço produções visuais não por encomenda.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Máucio – Geralmente minha participação está dentro de um projeto maior em que já existem parâmetros financeiros compatíveis. Os valores do mercado devem servir de referência. Os prazos de pagamentos também devem ser negociados com ¨jogo de cintura¨.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Máucio - Pela manhã preparo aula, faço contatos, elaboro projetos. A tarde ministro aulas. A noite trabalho em meu ateliê.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Máucio - Qualquer tarefa começa pela compreensão do todo (Gestalt do problema). Isso é fundamental. Por outro lado, na prática, no inicio de cada projeto começo pela organização e limpeza do ambiente de trabalho.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Máucio - Utilizo várias. PC, nanquim, lápis de cor...mas não me considero dominador de nenhuma delas. Não me considero técnico em ferramentas. Minha preocupação é a linguagem. Também não tenho vocação pra especialista, porque acho isso muito tedioso.Questão de temperamento, eu acho.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Máucio - Melhor seria pensar, que condições a criação exige de mim!? Desenhar é pensar! Pensar é sentir! Desenhar é ver! Tem que estar acontecendo tudo isso muito...

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Máucio - Me organizo muito. Preciso organizar as coisas pra poder desorganizar a cabeça e poder criar.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Máucio - fiz uns gaveteiros pra isso.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Máucio - Henfil foi muito importante pra mim. Chico Buarque. Mais tarde Paulo Leminski e Manoel de Barros.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Máucio - Livros, Google...normal. Mas a vida e o ¨quintal¨ são fundamentais.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Máucio - Tenho usado Filiart Renaud, 240 g/m2, superficie texturizada tela. Mas também tenho usado outros suportes não-papel.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Máucio - Não lembro de macetes técnicos.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Máucio - No trabalho por encomenda, deve-se ¨educar¨o cliente. No trabalho mais ¨artistico¨, o ¨cliente¨que se eduque se quiser...

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Máucio - Procurar sua vontade. Refletir sobre os clássicos. NUNCA endeusar nada nem ninguém. Não se achar ¨o cara¨.

Foto: Cláudia Souto

sábado, 5 de abril de 2008

bate-pronto EDGAR VASQUES

Vivendo para desenhar,
desenhando para viver




A trajetória do Edgar Vasques é a das suas linhas. Desconte-se o tempo no berço e dá pra dizer que desenha desde que nasceu. Para quem faturou o primeiro cachê gráfico já aos 14 anos, sua carreira acumula quase cinco décadas. Pela produtividade contínua e tanto espaço preenchido, dá pra avaliar a importância da criação do Edgar: a história social, cultural e política do Brasil permeia seu acervo, publicado ou não. Com a versatilidade de quem joga nas doze (é chargista, cartunista, caricaturista, quadrinista, ilustrador, sketchista e domina nanquim, grafite, aquarela, pincel, lápis e bico de pena), sua capacidade só foi driblada pelo mercado atual, que goleia os artistas gráficos em vários campos. Como aprendeu de tudo - na faculdade de arquitetura, em viagens à Europa, atuando em dezenas de veículos - o Edgar tem muito a transmitir. E é o que mais faz, com a consistência dos veteranos e o entusiasmo dos iniciantes, quando discorre sobre arte ou quando seu traço escorre no desafio da brancura. Ops, o Tinta China tá chovendo no alagado. O pai do Rango e fundador da Grafar que fale:

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Edgar Vasques – Alem de fazer ilustrações, caricaturas, charges, cartuns, HQs e aquarelas, minha principal atividade é simplesmente tentar sobreviver com tudo isso.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Edgar Vasques – Procuro ter um piso, um preço mínimo p/ cada tipo de trabalho. Acima disso depende do cliente, do tipo e do volume de trabalho.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Edgar Vasques – Sou muito dispersivo, custo bastante a me concentrar. Então, quando engreno, também custo a parar. É comum começar a trabalhar às seis ou sete da noite e seguir até quatro ou cinco da manhã.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Edgar Vasques -- Fico rabiscando imagens e anotando possibilidades de piadas, às vezes lendo ou olhando imagens de autores que me agradam até ter a idéia para ilustração, charge ou cartum. Na caricatura, o processo é tentativa e erro: de posse das referências (fotos) vou evoluindo, do retrato para o exagero humorístico, experimentando várias hipóteses. Nos quadrinhos, o processo é mental. Quando chego no papel, já tenho a HQ mais ou menos pronta na cabeça, e começo fazendo um diagrama da tira ou de cada página, estabelecendo a composição dos quadros e a posição dos balões e textos. Só depois crio as ilustrações. Naturalmente, em todos os casos, quando necessário, há uma etapa de pesquisa de referências, em publicações ou na internet.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Edgar Vasques – Sou muito rápido pra obter um domínio razoável (útil) de qualquer ferramenta de desenho. As de uso mais freqüente são esferográfica, caneta tinteiro e ponta de feltro para esboços e sketchbook, e grafite e pincéis nas aquarelas e nanquim com bico-de-pena, pincel seco e cabo de pincel nos trabalhos finalizados. Esporadicamente, também uso lápis de cor, hidrocores, canetas técnicas, esfuminho, etc.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Edgar Vasques – Um mínimo de tranqüilidade em relação a questões externas ao trabalho. È quase impossível me concentrar preocupado com problemas “extra prancheta”.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Edgar Vasques – Aprendi na prática que a questão do prazo é quase sempre um jogo de empurra, em que cada parte envolvida na cadeia produtiva das artes gráficas industriais procura ganhar o máximo de tempo para si e jogar o stress para o próximo envolvido. Daí vem a necessidade de negociar o tempo: procuro negociar o melhor prazo para mim (é difícil dar prazo exato para uma atividade criativa), e depois cumpri-lo.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Edgar Vasques - Tenho tentado, ao longo do tempo, organizá-los da melhor maneira possível, mas com quase quarenta anos de produção, acho que é assunto pra algum bibliotecário profissional...

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Edgar Vasques – Quando criança, Carl Barks (cujo traço reconhecia, sem saber o nome), Canini, que aí pelos seis anos tentava imitar, depois Ziraldo, Al Capp, Carlos Estevão (que talvez seja a maior de todas), Goya, e uma lista infindável, porque tudo que vejo e gosto, de certa forma me influencia. Hoje, entre outros, gosto muito do trabalho (cor e p&b) de Carlos Nine.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Edgar Vasques – Na cultura geral, tudo que aprendi na vida escolar, na literatura, cinema, música, viagens, vivências, etc. Nunca se sabe o que pode suscitar uma idéia, às vezes até um catálogo, um dicionário, uma conversa ou a mera observação do meio. Quanto a referências específicas, já respondi acima, no processo de trabalho.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Edgar Vasques – Claro, cada técnica de trabalho se cumpre melhor em determinado suporte. Pra quem, como eu, trabalha mais com aquarela ou nanquim, o papel mais qualificado é o Fabriano 330gr. Mas às vezes se obtém resultados interessantes fazendo experiências: eu descobri, por exemplo, que é possível fazer bico-de-pena legal em papel jornal ...

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Edgar Vasques - Bom, pra entrar nisso, seriam necessárias muitas entrevistas dessas...

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Edgar Vasques – Acho que o mercado brasileiro, no nosso campo, não está preparado para dar conta (ou pagar a conta) da enorme qualidade dos artistas gráficos. Vejo dois problemas principais (não que não haja outros):
1. a desinformação de clientes, intermediários (agentes) e capitalistas (editores, etc.) a respeito das artes gráficas, desde definições e aplicações até critérios de qualidade.
2. a mediocridade e não-profissionalismo de agentes e capitalistas, que não cumprem seu papel de alavancar junto ao mercado consumidor o enorme potencial das artes gráficas brasileiras, fazendo a sua parte: investir na criação, produção, distribuição e divulgação.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Edgar Vasques – Ponha pra fora, no seu trabalho, as influências que lhe impressionaram. Depois disso, deixe aflorar o se próprio estilo, e procure ter uma postura de artista, refletindo o meio em que vive, mesmo em trabalhos sob encomenda.

Foto: Hals

sábado, 15 de março de 2008

bate-pronto PEDRO ALICE

O mundo concreto de
um artista digital



Autor de um trabalho incomum, só poderia ser incomum o artista que aceitou responder as perguntas dessa vez. Pintor e desenhista de mão cheio, usa toda a energia que carrega nas mãos para mover pixels. Desde 1996 que Pedro Alice se dedica consistentemente a ilustração digital e agora está fechando o círculo e começando a expor trabalhos que derivam do pensamento gráfico digital: quadros que parecem telas virtuais, quando na verdade são feitos de matérias bem concretas. Um dos fundadores da seminal revista Kamikaze fez quadrinhos que são verdadeiros clássicos esperando uma reedição. Seu trabalho atualmente pode ser encontrado em fanzines, eventuais exposições coletivas e em revistas, jornais e livros tais como Extra Classe, Utopia, Cadernos Diplô, A Pata Maldita. Manda, Pedro!

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Pedro Alice – Ilustrador editorial. Também estou começando a desenvolver trabalhos plásticos, com gravura digital aplicada.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Pedro Alice – Negocio os valores com flexibilidade, compreensão, realismo e senso de dignidade. Não me venham com migalhas... Se tu te sujeitas a trabalhar em condições aviltantes, este cliente só vai lembrar de ti quando não puder pagar. Quando houver dinheiro na jogada, ele vai contratar outro. Já ensinava o sábio Turuga...

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Pedro Alice – Atípico. Não gosto de cortar o fluxo das idéias, então não tem hora para começar e termina quando desabo de exaustão. Geralmente possui mais de 24 horas, e coisas como “refeição” se tornam meras abstrações.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Pedro Alice – Ilustração editorial começa pela leitura do texto, né? Seguidamente faço uma pesquisa de imagens sobre o assunto. Estimula as idéias e evita que se repita trabalhos que já foram feitos. Em trabalhos plásticos ou pessoais, começa por um impulso inexplicável.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Pedro Alice – Adobe Photoshop.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Pedro Alice – Rock’n’Roll, café, cigarros e bananas (o fast-food mais rápido da galáxia).

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Pedro Alice – Através dos tempos, fui me tornando cada vez mais rápido. Mesmo assim, não sou um desenhista veloz. Sou meticuloso e exigente com meu trabalho, e as soluções gráficas que utilizo demandam tempo. Recuso trabalhos com prazos impraticáveis por mim. No mais, corro como um desesperado para que eles não me alcancem.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Pedro Alice – No HD e em backups. Também tenho desenhos antigos em pastas e caixas de papelão (para o regozijo dos ácaros e das traças).

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Pedro Alice – Cresci numa família de posses modestas, porém cercado de livros e discos (LP, vinil). Tive contato com Hyeronimus Bosch e Picasso através de capas de livro, por isto as artes gráficas e plásticas sempre estiveram meio que misturadas na minha cabeça. As capas de discos de rock e jazz dos anos 60 e 70. Van Gogh e todos os impressionistas. As histórias em quadrinhos. Os desenhos animados da tv. Canini na Recreio. A publicidade. Surrealismo, paixão infantil substituída pelo Dada e pelo Pop na adolescência. Os cartazes de propaganda da IIª Guerra Mundial. Os cartazes de cinema. O Pasquim que eu lia escondido dos meus pais. Com 10 anos viciei em cartum e humor. Fradim o 1° punk. A imprensa de resistência à ditadura e com ela Santiago, Edgar, Eugênio, Juska, LFV,Rubem Grillo... Jaca nos 80. Os desenhos do Alemão Guazzelli feitos à Bic nas classes da escola, que as serventes apagavam com álcool e depois eu restaurava, antes da gente ficar amigo. Os ilustradores da Europa Oriental comunista. Fontanarrosa, Breccia e todos aqueles argentinos. Gigger, Dave MacKean, Liberatore e todos aqueles terráqueos. CHEGA!!! Enfim, o universo, o multiverso e além...

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Pedro Alice – No Google.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Pedro Alice – No meu trabalho plástico tenho feito pesquisas com transparência. Também utilizo o papel Granitto da Filiperson, mas não sei se ainda existe no mercado.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Pedro Alice – Sobreposição de uma mesma imagem com tratamentos diferenciados, em layers com variados atributos de transparência e luminosidade.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Pedro Alice – Mercado?! Vocês devem estar brincando... Esqueceram que, antes de virar uma referência nacional, Allan Sieber passava fome em Porto Alegre?! Por mais lindos que sejam os infográficos do Gabriel Renner, vocês acham que esta é a melhor utilização para o talento deste rapaz?! Neste pedaço de chão esquecido pelos homens e abandonado por deus, é mais fácil caçar Saci do que encontrar o mercado. Nem o Walter Mercado aparece por aqui...

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Pedro Alice – Existem bilhões de pessoas no mundo. Um grande número delas não vai gostar do seu trabalho, a maior parte nem vai notar que ele existe. Não se intimide com críticas. Algumas serão totalmente disparatadas, ou poderão ser lúcidas e inteligentes mas não se aplicar a sua intenção estética. Outras serão muito úteis. Reflita com carinho e defenda seus pontos de vista com serenidade e segurança. E nunca pare de experimentar.

Foto: Pedro Alice

sábado, 16 de fevereiro de 2008

bate-pronto ALISSON

Um pincel na mão e
uma Idéia na cabeça




Famoso pelas pinceladas largas e por ser um dos editores da revista Idéia, Alisson Affonso passou pela escola e continua nela, dando aulas de desenho e serigrafia. Sua tira semanal no Tinta China atrai atenção pelo tema e pelo tratamento: Os Véios mira nos mais velhos mas não é cruel nem condescendente, é só carinhosamente folgado. E isso já lhe valeu o elogio da turma e menção honrosa no 3º Salão de Humor de Paraguaçu Paulista. Bom de olho e de ouvido ele vai catando as conversas na rua e de certa forma é um pouco de Rio Grande que transparece nas tiras, quadrinhos e desenhos que ele nos apresenta. Olhos e ouvidos abertos, então.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Alisson – A publicação da Revista de humor e quadrinhos “IDÉIA”!

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Alisson – Negocio de acordo com a realidade da clientela que solicita os trabalhos.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Alisson – Acordo com um bocado de papéis, nanquim e pincel na beira da cama, permaneço com estas ferramentas perto de mim durante o dia todo, e a produção rola, independente de prazos, pode se estender até a madruga!

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Alisson – Tenho um processo diferente na produção de tiras ou quadrinhos, risco o personagem e depois disso, penso as ações e atmosfera, assim acabo aproveitando anotações e aumentando o banco de imagens.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Alisson – Atualmente tenho me divertido utilizando o pincel e nanquim, mas gosto de uma pena artesanal que eu mesmo confecciono, o computador e aquarela são ferramentas fantásticas que pretendo dominar um pouco mais.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Alisson– O tempo é algo bem relativo, e o processo de criação necessita de certa liberdade, mesmo obedecendo as especificações de cada trabalho.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Alisson – Ainda não tenho uma má fama no cumprimento de prazos, mas costumo entregar as coisas na finaleira!

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Alisson – Organizei umas pastas de tamanho A3, com especificações quanto ilustração, Cartum, estudo de modelos vivos, e histórias em quadrinhos, mas ainda tenho problemas com espaço.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Alisson – Quando tinha uns 15 anos, queria ser Angeli, depois tive acesso a outros grandes cartunistas, Laerte, Vasques, Santiago, Will Eisner, entre outros, mas tenho o cinema como referência no meu trabalho, e elaboração de estórias.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Alisson – Busco muitas informações no cotidiano, existem muitas situações interessantes á serem contadas, com base no patrimônio Cultural.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Alisson – Estou utilizando o miolo de Passpatout, é super resistente á técnicas úmidas, mas gosto da propriedade do papel jornal, embora mais fino ele estabelece um atrito interessante com a caneta ou lápis de cor.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Alisson – Aplico muitas coisas que aprendi em termos de composição, assim é possível visualizar os resultados e possibilidades técnicas de cada trabalho.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Alisson – Enfrentar a cultura de desvalorização da atividade artística.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Alisson – Leve consigo um bloco de papel e caneta, para todos os lugares e não se esqueça de utilizar o tempo vago para desenhar!

Foto: Wagner Passos

sábado, 26 de janeiro de 2008

bate-pronto CARLA PILLA

Com vocês, nossa
desenhista multi-tarefa



Não é fácil viver de desenho, todo o mundo sabe. E pra se virar nesse ofício tem que se fazer de tudo. Nossa estrela de hoje é uma ilustradora animada ou uma animadora ilustrada. Publicitária formada, foi atrás da linha do desenho: fez pós-graduação em Expressão Gráfica e agora é caloura no Instituto de Artes da UFRGS. Continuamente se ilustrando e animada como é, não dá pra imaginar fim nessa caminhada. Empresta seu traço para todo o tipo de empreendimento: impressos, internet, propaganda, jogos e editorial. Tem o que se precisa para essa profissão: pés no chão e cabeça nas nuvens. E como se não bastasse ainda faz uns bicos animando as reuniões semanais da Grafar. Com vocês, Carla Pilla, nossa ilustríssima animatriz.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Carla – Atualmente, ilustração e animação.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Carla – Calculo por hora de trabalho. Projetos muito legais ou muito chatinhos merecem tabelas diferenciadas, e o porte do cliente e o prazo pedido também contam. Claro que às vezes o valor já vem fechado - aceita-se ou não.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Carla – Trabalho em casa com dois gatos (felinos, felinos!). Mesmo assim acordo relativamente cedo, tomo um bom café da manhã e bato ponto no computador até umas 19h se possível. Resquícios da vida corporativa.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Carla – Revisando o briefing e o prazo, antes de sair viajando na idéia. Quando é mais livre, uns dias de intervalo entre o briefing e a criação ajudam para idéias melhores e mais espontâneas.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Carla – Tradicionalmente a mão esquerda, papel e canetas, Freehand, Photoshop e Flash. Mas tenho me aventurado em materiais diversos, de pastéis secos e oleosos a massinha de modelar.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Carla – Tranqüilidade. Os dois gatos e o bom café da manhã também me ajudam bastante.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Carla –Faço questão de entregar na data combinada com o cliente, então só pego um projeto se vejo que tenho condições de cumprir no prazo com um mínimo de qualidade. Mas projetos pessoais e sem prazo acabam ficando para "o dia que der"...

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Carla – Originais em papel vão para uma pasta física. Arquivos digitais, para uma pasta virtual. E os trabalhos finais vão todos pro portfolio online.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Carla – Minha própria infância, imaginário, sonhos. Literatura infantil e juvenil, desenhos animados. Sou subjetiva demais para citar nomes.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Carla – Quando preciso ser objetiva, pesquisa em livros e internet. Em outros momentos, uma boa caminhada ativa o liqüidificador cerebral.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Carla – Se vou finalizar no computador, normalmente sulfite A4 (pra caber no scanner), simplezinho. Com outros materiais, vai depender da técnica.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Carla – A seqüência "desenhar à mão, scanear, vetorizar e depois colorir digitalmente" funciona e evita surpresas e tempo perdido. Mas divertido mesmo é testar algo que nunca fiz antes.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Carla – Eu chamaria de desafios, e são dois: como freelancer, a organização do tempo apesar dos altos e baixos no volume de projetos; e ganhar bem com os projetos realmente divertidos.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Carla – Talvez eu possa responder melhor essa pergunta daqui a uns 30 anos! Ok, a dica: manter sempre a paixão do iniciante. Nunca estamos prontos e acabados, o que importa é saborear o aprendizado.

Foto: Nataniel Strack

sábado, 22 de dezembro de 2007

bate-pronto RAFAEL SICA

Apresentamos a mão
mais loquaz do oeste



Entra quieto e sai mudo, o Rafael Sica é conhecido por não dar muita trela nas reuniões da Grafar. Ninguém sabe de onde ele veio, quando nasceu, essas coisas mundanas. A lenda diz que veio do sul, Rio Grande, por aí. Alguns dizem que veio do norte, São Paulo, talvez. Tudo é possível. A única coisa garantida é que seja lá de qual cidade ele tenha vindo ele não deixou de desenhar um segundo por onde passou. Quando não está ilustrando ou fazendo tiras para o Diário Gaúcho ele está... bem, desculpe ser redundante, ilustrando ou fazendo tiras. Já publicou em diversos veículos, A Folha de São Paulo, por exemplo e recentemente teve uma história publicada no livro Irmãos Grimm em Quadrinhos. Orgulhoso proprietário de uma família zero bala aproveitem uma rara ocasião em que o Sica resolveu abrir o verbo.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Rafael Sica – Fazer cócegas em quem não tem mais motivos pra rir.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Rafael Sica – Abrindo as pernas.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Rafael Sica – Acordo cedo e como uma tigela de cereais, depois vou correr no parque, volto, tomo banho, como a empregada, tomo banho de novo, pego meu importado e vou trabalhar. Nada demais.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Rafael Sica – e vou fazer algum trabalho sob encomenda, começo pesquisando sobre o que foi proposto. Se o trabalho é autoral, começo pelas anotações que faço em papéis. Tem vezes também que não sei por onde começar. Muitas vezes.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Rafael Sica – Chave de boca e alicate de pressão uso bastante, mas me dou melhor com pé de cabra e marreta.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Rafael Sica – Não estou em condições de fazer exigências.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Rafael Sica – "O prazo é mais importante que o seu trabalho, cê sabia, Rafael??". Foi a coisa mais simpática que já ouvi.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Rafael Sica – O volume é grande e a maioria enterro no pátio. Outras guardo pra minha filha pintar, e poucas coloco em pastas que não sei onde coloquei.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Rafael Sica – Comecei com a cola de sapateiro, depois parti pra coisas mais pesadas.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Rafael Sica – Veja, Estadão e Zero Hora.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Rafael Sica – Uso o que tiver e aproveito bem, desenho num tamanho pequeno.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Rafael Sica – Desenhar o esboço com grafite colorido pra não precisar apagar com borracha depois, tem me ajudado.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Rafael Sica – O mercado segue tendências. Meu trabalho tá por fora.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Rafael Sica – Sou um iniciante. Sei lá. Desenhe feito um tarado.

Foto: Carolina Reque

sábado, 8 de dezembro de 2007

bate-pronto FABIO ZIMBRES

O autor FZ disputa frilas, jobs e
o que mais vier com o editor FZ




O mundo perdeu um arquiteto (pra poupar as pessoas de entrar em alguma criação sua, segundo ele) mas ganhou um cara que arquiteta pra caramba: Fabio Zimbres vive em meio a projetos de artes gráficas e plásticas que estão sempre andando, porque atrás vêm outros. Vulgo FZ, esse paulistano faz tudo a quatro mãos com ele mesmo: desenha sem parar, pinta sem deixar de atender o mercado, edita sem cessar. E com as mãos que sobram livres, aí se ocupa como quadrinista, ilustrador e designer - sua folha de serviços editoriais é um rol de publicações. FZ fez parte da equipe que concebeu e editou a revista Animal, além das suas iniciativas com a revista Brigitte e a editora Tonto. Quando não está publicando em jornais e revistas brasileiras e do exterior, está lançando livros, como Música para Antropomorfos, Feliz e O Apocalipse segundo Dr. Zeug. Se um dínamo pode ser low-profile, ele é. Na verdade, é um Ivo: inventivo (nas criações) produtivo e prestativo (nas parcerias e empreitadas coletivas) e seletivo (no convívio). Hoje Fabio Zimbres abre pro Tinta China o seu gozativo manual de instruções para múltiplas atividades. Divirtam-se.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Fabio Zimbres – Faxina: em minha mesa, computador e estúdio mas também nas idéias mal arranjadas que se tem que consertar.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Fabio Zimbres – Sou inflexível mas sensível.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Fabio Zimbres – Horas na frente do computador, alguns minutos para algo mais divertido.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Fabio Zimbres – Pela faxina: dou uma limpada na mesa e abro espaço para uma folha de papel. Depois, uma caminhada no parque pra ver se vem alguma idéia.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Fabio Zimbres – Acho que não nasci pra dominar nada então utilizo qualquer uma que esteja disponível, dá na mesma..

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Fabio Zimbres – Não exijo nada, nunca. Um beijinho de vez em quando, talvez.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Fabio Zimbres – Os prazos é que lidam comigo (acho que foi o Roberto Silva quem disse isso) e lidam mal.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Fabio Zimbres – Em envelopes individuais de papel anti ácido numa sala com umidade controlada e os arquivos digitais num HD que deposito num banco na Suíça.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Fabio Zimbres – Maurício de Souza mas depois Hello Kitty já que conceitualmente é menos dogmático. E claro que tem uma lista que se eu não coloco o pessoal reclama: Geroge Herrimann, Jaca, Pazienza, Luís Gê, Gary Panter, Mariscal, Steinberg, Kurtzman etc.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Fabio Zimbres – Em qualquer lugar: se não encontro em casa mesmo ou na internet sempre tem a rua, os sebos e as casas dos amigos. Em museus, as vezes.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Fabio Zimbres – Kraft bem grosso com uma camada de PVA fica muito bom. Se não tiver pode ser um Fabriano que é quase tão bom quanto.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Fabio Zimbres – Para se livrar do medo de desenhar numa folha em branco vale até jogar ela no chão e dar uma pisadinha.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Fabio Zimbres – O mercado falou alguma coisa de mim? É mentira.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Fabio Zimbres – Desenhar sem parar pode gerar algum problema físico mas ainda é a melhor maneira de fazer esse negócio. Se você gostar disso, tanto melhor. E desenhar sem medo.

Foto: Mauren Veras

sábado, 24 de novembro de 2007

bate-pronto RAFAEL

Todo artista gráfico tem
que ir aonde o job está




Quem vê a tranquilidade do criador de Artur, o arteiro e das Sapatiras - atrações aqui no blog - nem imagina o azougue profissional que é o Rafael Corrêa. Além de cartunista e quadrinista, os talentos desse rosariense-do-sul da safra de 76, se espalham pelas áreas do design e da publicidade, a partir das suas múltiplas funções criativas na Catarse - Coletivo de Comunicação. Como a expressão "ganhar a vida" subentende cada vez menos ganhos, Rafael se empenha em qualificar suas criações, em otimizar (argh!) sua produtividade. E pra compensar os jobs da sobrevivência, se atira à tarefas de graça: participa de exposições de humor (como Davos, tô Fórum), lança seus livros, bola novos projetos e ainda arranja tempo para colaborar com o Tinta China. Enfim, um grafariano que soube encontrar na diversificação das atividades a bóia da salvação nisso que ainda chamam de mercado. Ouçam, guris:

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Rafael – Diagramação, criação de folders, cartazes e logomarcas.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Rafael – Tento seguir uma tabela de preços, mas na maioria das vezes preciso dar um descontinho para não perder o trabalho.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Rafael – De manhã trabalho com desenho, de tarde trabalho no computador até a noite, mas dependendo do serviço essa rotina vai pro beleléu.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Rafael – O ideal é conversar bastante com o cliente e fazer um briefing detalhado para não perder tempo.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Rafael – Para o desenho basicamente caneta nanquin descartável, no computador corel e photoshop.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Rafael – Um ambiente tranqüilo onde não se escute um alarme de carro tocando.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Rafael – Faço o mais rápido possível, mas isso não é o ideal, o bom é entregar no prazo estipulado.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Rafael – Em pastas e cd's, também criei um e-mail para armazenar os desenhos, assim tenho acesso a eles onde estiver.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Rafael – A minha primeira influência foi meu pai, não pelo desenho, mas pelo senso de humor. Nos quadrinhos Bill Watterson e Laerte sempre.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Rafael – Num baú cheio de gibis, em livros, em filmes e na internet.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Rafael – Não ouso muito, uso sempre sulfite 75g.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Rafael – Trabalho direto com mesa de luz. Facilita muito.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Rafael – Conseguir publicar.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Rafael – Desenhar sempre, ler de tudo e buscar conhecimento com os mestres. Nesse sentido meu ingresso na Grafar foi fundamental para a minha carreira.

Foto: Tatiana Schostack

sábado, 13 de outubro de 2007

bate-pronto NIK

Aos 31 anos, um ilustrador
preparado pro que der e vier



Alguém disse, na década passada, que no futuro não haveria mais empregos, só trabalho. E para os ilustradores, esse futuro é já. O Nik é o típico exemplo, com criaçao e produção exemplar: tem estúdio em casa e daqui atende os frilas locais e nacionais. Para dar conta das cada vez mais exigentes solicitações do mercado gráfico, como agências e publicações, Nik se preparou à altura: cursou publicidade e propaganda na PUC e artes visuais na UFRGS. Pra arrematar, em 2003 fez pós-graduação em ilustração criativa na meca das artes gráficas, Barcelona. Aplicado e dedicado ao que sabe e gosta de fazer, Nik pode ser visto este mês em três matérias na edição #5 da nova revista Getúlio (da FGV), com ilustrações de página inteira. Recém de volta à Grafar, esse paulista de 76 e gaúcho desde 81, fala agora da sua experiência pro Tinta China. Bem-vindo, Nik.

Tinta China - Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Nik - Desde 2002 a ilustração tem ocupado a maior parte dos meus dias, é também meu ganha pão.

Tinta China - Como você negocia os valores de seus frilas?
Nik - Hoje em dia costumo propor valores mas sei que muitas das revistas com quem trabalho já tem um valor fixo para determinado tamanho de ilustração. Procuro encontrar um meio termo, sempre que dá.

Tinta China - Como é um dia típico de trabalho para você?
Nik - Trabalho em casa, em geral de manhã das 9h as 12h e de tarde das 14h as 19h ou mais, dependendo do volume de trabalho. Nos domingos costumo trabalhar também durante a noite pra evitar a deprê.

Tinta China - Por onde você começa uma tarefa?
Nik - Primeiro me inteiro sobre o tema do trabalho, pesquiso em livros ou internet. Depois faço alguns rascunhos e parto pra parte de finalização.

Tinta China - Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Nik - Posso dizer que tenho um domínio técnico razoável com aquarela e tinta acrílica. Mas manjo mesmo de nanquim e photoshop. Procuro misturar técnicas pra enriquecer o trabalho já que o computador é uma ferramenta bem versátil mas que depende de um uso criativo para fugir do lugar comum.

Tinta China - Que condições você exige ou depende para criar?
Nik - Só preciso de um computador, escaner, papeis e tinta. Trabalho as vezes na rua pra mudar o ambiente inclusive. Como desenhista, eu poderia ser cigano, sem o menor problema.

Tinta China - Como você lida com os prazos?
Nik - Procuro entregar na data, nem antes nem depois, mas as vezes o volume de trabalho (e a urgência das criaturas) impede que isso aconteça.

Tinta China - Como você mantém os originais que produz?
Nik - Os que gosto eu guardo, mas atualmente tenho jogado muita coisa fora, não gosto de guardar coisas por muito tempo.

Tinta China - Quais suas primeiras e atuais influências?
Nik - Minhas primeiras e atuais influências sempre foram quadrinistas, apesar da ilustração ser um campo totalmente diferente. Gosto e gostava de Moebius, Bernet, Winsor McCay. Atualmente sou um grande admirador de Charles Burns, Daniel Clowes e Chris Ware.

Tinta China - Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Nik - Depende do trabalho, as vezes a referencia de traço vem de um artista plástico, um pintor, ou até mesmo um desenhista de quadrinhos. Mas a busca vem, quase que exclusivamente via Google mesmo.

Tinta China - Você tem preferência por algum tipo de papel?
Nik - Gosto de papéis mais lisos, como uso quase que unicamente bico de pena sobre papel, qualquer textura torna-se prejudicial.

Tinta China - Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Nik - Uso muitas texturas e paletas de cor que eu mesmo criei, tenho tudo organizado e isso agiliza o trabalho.

Tinta China - Qual o seu maior conflito com o mercado?
Nik - O fato do designer brasileiro querer copiar tudo do exterior. Desde a cara da campanha ou revista até o traço do ilustrador. Isso além de provinciano diminui o trabalho de quem colabora e a cultura brasileira como um todo.

Tinta China - Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Nik - Ser persistente e humilde. Um portfolio de um iniciante é cheio de falhas e trabalhos fracos e ele tem que saber disso lá no fundo. Ter um portfolio é só o começo de uma pesquisa pessoal que precisa ser provada - pra si mesmo - no campo de batalha que é a publicação. Não considero meu trabalho bom o bastante, mesmo quando me dizem.

Foto: Marina Camargo

sábado, 29 de setembro de 2007

bate-pronto RODRIGO ROSA

Como ganhar a vida ganhando
prêmios e admiração do público




A palavra versatilidade, quando aplicada ao Rodrigo Rosa, fica ainda mais versátil. Como tantos artistas gráficos, ele se expressa em vários campos (cartunismo, ilustração, quadrinhos). Como poucos artistas nessas áreas, se impõe pela extrema qualidade do seu trabalho: maestria no uso das ferramentas (caneta, lápis, tipo de papel – que, no caso dele, também contribui para resultados surpreendentes) e no uso das técnicas (aquarela, pastel, lápis de cor, caneta). Profissional precoce desde os 14 anos, suas atividades criativas vão desde os frilas regulares do mercado (editoras, revistas, agências) até os incessantes apelos interiores (salões de humor, onde é colecionador de prêmios nacionais e internacionais; projetos em parceria com escritores como Erico Veríssimo, Carlos Urbim, Sérgio Caparelli, entre outros; criador de HQ faz tudo: roteiro e imagem; e sketchbooks, exercício permanente do seu inquieto talento). Recém chegado de um curso na Espanha, com passagem pela França, Rodrigo Rosa fala dos bastidores da sua arte ao Tinta China.

Tinta China - Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Rodrigo Rosa - Venho fazendo muita ilustração pra livros infantis. Agora vou retomar os quadrinhos pra fazer um álbum pro ano que vem

Tinta China - Qual a sua maior fonte de renda com sua arte?
Rodrigo Rosa - Ilustração pra livros e as vezes pra publicidade, que é algo mais chato mas paga melhor.

Tinta China - Como você negocia os valores de seus frilas?
Rodrigo Rosa - Tento ficar antenado quanto às médias negociadas por outros colegas e me mantenho nelas. Quando vejo que o cliente é um pouco mais graúdo, arrisco um valor melhor... as vezes cola.

Tinta China - Como é um dia típico de trabalho para você?
Rodrigo Rosa - Não tenho muito isso, não. Se tenho muito trabalho, trabalho muito. Se o trabalho é pouco, trabalho pouco... sou um indisciplinado.

Tinta China - Por onde você começa uma tarefa?
Rodrigo Rosa - A maioria das vezes lendo os textos e pesquisando atrás de referências

Tinta China - Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Rodrigo Rosa - Trabalho tanto com materias tradicionais como no computador. Domino os softwares somente o necessário pra obter os resultados que me agradam. Nada mais

Tinta China - Que condições você exige ou depende para criar?
Rodrigo Rosa - Um local bem iluminado com uma mesa e cadeira decentes

Tinta China - Como você lida com os prazos?
Rodrigo Rosa - Costumo cumpri-los à risca. Se me pedem um trabalho pra dia X, entrego no dia X. Nem antes nem depois.

Tinta China - Como você mantém os originais que produz?
Rodrigo Rosa - Em pastas e envelopes

Tinta China - Quais suas primeiras e atuais influências?
Rodrigo Rosa - As primeiras foram os gibis Marvel... Eu gostava pacas do Sal Buscema, irmão do John... Hoje acho isso engraçado porque esse cara era muito ruim. Atualmente gosto muito dos novos quadrinistas franceses: Manu Lancernet, Joan Sphar, Cristophe Blain...

Tinta China - Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Rodrigo Rosa - Em livros, filmes e na internet.

Tinta China - Você tem preferência por algum tipo de papel?
Rodrigo Rosa - Depende do trabalho. Uso com freqüência papéis para aquarela como o Fabriano e papéis Canson coloridos quando trabalho com pastel seco.

Tinta China - Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Rodrigo Rosa - O que sempre me preocupa mais é que o desenho tenha um clima adequado à cena e que tenha movimento, fluidez.

Tinta China - Qual o seu maior conflito com o mercado?
Rodrigo Rosa - O mercado vem piorando nos últimos tempos... Esta semana, uma grande editora me pediu um trabalho grande e já disse quanto
o meu trabalho valia, sem nem me pedir um orçamento. A briga maior está sendo pra conseguir dignidade e respeito profissional.

Tinta China - Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Rodrigo Rosa - Desenhe bastante e esteja atento pro mundo em volta. Desenhista tapado só terá idéias tapadas.

Foto: Manuela Eichner

sábado, 15 de setembro de 2007

bate-pronto LANCAST

A experiência como um dinâmo
e o humor como combustível



Quem vê o Lancast nem percebe que ali, na nossa frente, está uma entusiasmada equipe completa de profissionais gráficos. No mínimo ele é 4 em 1: diretor-presidente de um conglomerado de animação na zona sul, a Produtora Gato Amarelo; sócio da Martinelli Films, em SP; parceiro da Otto Desenhos; e colaborador do Tinta China. Fora isso, atua em várias frentes, todas de frente pros mercados cultural, publicitário e editorial, local ou nacional: animador, ilustrador e cartunista. Dinâmico até quando está quieto, Lancast é um criador de mão cheia - de jobs, projetos e planos. Agora, por exemplo, está ocupado em promover a Anabel no exterior. Com vocês, o melhor discípulo que o Canini já teve ou poderia ter. Fala, Lanca!

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Lancast – Consultor Técnico de preenchimento do IR.

Tinta China – Qual a sua maior fonte de renda com sua arte?
Lancast – Depende de quanto está a cotação do quilo do papel, mas essa é liqüidez certa.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Lancast – Livremente.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Lancast – Quando começa já de tardinha...

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Lancast - Pelo fim, pois assim acabo logo.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Lancast – Olha, ferramenta mesmo, só a minha. E modéstia a parte, domino muito bem.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Lancast – Uma rede ajuda muito, mas pode ser uma poltrona.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Lancast – Muita negociação e uns sumiços de vez em quando.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Lancast – Em estado permanente de deterioração.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Lancast – Canini, Herriman, Feininger, Carrol, Poe...

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Lancast – Na internet, é só baixar uns desenhos ou umas idéias, dá uma guaribada para disfarçar e tá pronto o carreto, bem apoiadas.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Lancast – Um que a gente possa usar mais de uma vez. Tipo: lavou tá novo.

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Lancast – Paciência, paciência e muita paciência.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Lancast – Não quererem pagar a fortuna que eu mereço.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Lancast – Que está começando tarde, tinha que ter começado mais cedo.

Foto: Denise Ehlers

sábado, 1 de setembro de 2007

bate-pronto EUGÊNIO NEVES

Quem aí já viu este cara
desocupado levante o dedo



Antes de ser o incansável secretário da Grafar, o Eugênio Neves é um artista gráfico que não descansa. Há mais de 35 anos se divide entre os mercados publicitário e editorial sem cair em divisão. A ambos entrega seu talento, pra cada área um tipo de profissionalismo, aos dois a mesma qualidade. A um, seu produto diferenciado pela experiência; ao outro, sua alma engajada por natureza. Consciente e eficiente como ele só, trabalho não falta para um dos melhores ilustradores da atualidade - de qualquer mercado, daqui ou lá fora. A convite do Tinta China, com vocês, o bico-de-pena mais detalhista do oeste e demais pontos cadeais: Eugênio Neves. Aprendam, crianças.

Tinta China – Como artista gráfico, qual a sua atividade principal?
Eugênio Neves – Trabalho como ilustrador, cartunista e chargista.

Tinta China – Qual a sua maior fonte de renda com sua arte?
Eugênio Neves – Ilustração e cartum.

Tinta China – Como você negocia os valores de seus frilas?
Eugênio Neves – Cobrando o melhor que eu posso.

Tinta China – Como é um dia típico de trabalho para você?
Eugênio Neves – Começo a trabalhar depois do meio-dia e praticamente amanheço.

Tinta China – Por onde você começa uma tarefa?
Eugênio Neves – Varia muito: pela pesquisa, pelo próprio desenho, depende do caso.

Tinta China – Quais ferramentas você utiliza e qual domina mais?
Eugênio Neves – Uso tudo: desde o bico-de-pena até o computador. Já desenhei até com palito de dente embebido em nanquim. Tem trabalhos que executo totalmente à mão, outros à mão e computador e outros só no computador.

Tinta China – Que condições você exige ou depende para criar?
Eugênio Neves – Qualquer lugar. Às vezes, andando de ônibus vou anotando as minhas idéias. Mas para desenhar, gosto de estar na minha mesa com o meu material na mão.

Tinta China – Como você lida com os prazos?
Eugênio Neves – A começar pela resposta a esta entrevista, é problemático. Sou um procrastinador.

Tinta China – Como você mantém os originais que produz?
Eugênio Neves – Sou um diligente burocrata. Guardo tudo em armários de aço, em pastas suspensas. E do material digital, sempre produzo mais de uma cópia por segurança, pois não confio na segurança dessas mídias.

Tinta China – Quais suas primeiras e atuais influências?
Eugênio Neves – Sempre me deixei influenciar por ilustradores, principalmente, os da Europa Oriental: Roland Topor, Eugene Miaescu, essa turma aí. Também gosto muito do Brad Holland.

Tinta China – Onde você busca informações para apoiar suas criações?
Eugênio Neves – Tudo é informação.

Tinta China – Você tem preferência por algum tipo de papel?
Eugênio Neves – Não, desenho sobre qualquer superfície, a não ser que eu precise me valer da textura do papel para produzir algum resultado no trabalho..

Tinta China – Quais macetes técnicos funcionam no seu trabalho?
Eugênio Neves – Aprendi muita técnica em agência de publicidade no pouco tempo em que passei por elas. Conheço um monte de truques.

Tinta China – Qual o seu maior conflito com o mercado?
Eugênio Neves – Fazer com que eles paguem aquilo que o trabalho vale.

Tinta China – Que dicas básicas você daria para um iniciante?
Eugênio Neves – Desenhe muito e nunca jogue fora o que produziu. Depois de um tempo, compare a produção do momento com aquilo que já fez. para constatar a evolução do seu trabalho.

Foto: Cláudia Cardoso