sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

tesoura KAYSER E O JORNAL DO COMÉRCIO

Depoimento do chargista sobre
os 5 anos de restrições à atividade


Os nossos quase cinco anos de JC foram vividos com um sentimento dicotômico. Por um lado, fizemos coisas fantásticas, das quais nos orgulhamos. Grandes charges, belos desenhos, piadas cáusticas e hilárias. Obras que nos renderam prêmios em diversos salões de humor. Nas nossas charges, conseguimos fugir ao senso comum, falando sobre assuntos inusitados ou abordando a "pauta do dia" de modo singular. Por outro lado, não tínhamos toda a liberdade que gostaríamos, nem ao menos a que mereceríamos. Era frustrante ver outros chargistas locais falando de temas que nos eram explicitamente proibidos. Durante um bom tempo, eu até peguei a manha da coisa. Eu sabia que não podia falar do Rigotto, mas podia criticar seu governo, desde que seu nome não fosse citado. Publicar charges contra o governo (por assim dizer) Rigotto sem que o patrão se desse conta era até uma diversão a mais, como a que tem um estudante ao colar em uma prova, mesmo sem precisar.



Já outros temas foram mais dolorosos: estatuto do desarmamento e seus homens de bem que iriam nos salvar da bandidagem e a guerra no Líbano, por exemplo, não puderam ser comentados. Sem falar da auto-censura que nos impúnhamos. Para não nos incomodarmos, às vezes fazíamos charges "domesticadas", com o texto mais insosso, fraquinho, ou nem mandávamos a grande charge do momento para não passarmos pelo constrangimento inevitável de vê-la censurada. Pois nos últimos tempos, esse sentimento de frustração foi se tornando maior do que aquele de orgulho por nosso trabalho. Ao mesmo tempo, crescia a intolerância do jornal com o que fazíamos. Charges que antes eram permitidas, agora eram censuradas. Eles já não aturavam mais nossa mania de fazer nosso trabalho bem feito e nós já não aturávamos mais ter nossos desenhos censurados. Como nós não podíamos demitir o jornal, o desfecho não poderia ter sido outro. (Kayser)



(Último depoimento de uma série de três. O do Moa saiu ontem e o do Santiago, anteontem.)

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